quarta-feira, 1 de junho de 2011

A IMPORTÂNCIA DOS SABÁS

Amanezco hoy
por la fuerza del cielo, la luz del sol,
el resplandor de la luna,
el esplendor del fuego,
la velocidad del rayo,
la rapidez del viento,
la profundidad del mar,
la estabilidad de la tierra,
la firmeza de la roca.
Amanezco hoy
por la fuerza secreta de Dios que me guía.
(Oração celta)

No ano passado, com medo do frio, decidi fazer o caminho de Santiago em setembro. Este ano, ansiosa por ver as flores da primavera européia, fui para a Itália em maio. Não me arrependi! Flores eu queria e flores eu vi. 
Maravilhosas, exuberantes, nos jardins, nas trilhas, nos bosques, nas montanhas! Por toda parte uma explosão de cores e perfumes.
Eu não sou muito de fotografar as coisas que vejo, mesmo as que me fascinam. Em um dia inteiro de caminhada se consigo tirar cinco fotos é muito. Acho que as fotografias cristalizam o tempo e se nem mesmo o espaço pode ser cristalizado, pois que muda a cada instante, que dirá o tempo que é fluido por natureza. Mas não resisti a fotografar as flores do caminho de São Francisco.  E enquanto me surpreendia com as maravilhas da natureza a cada passo do caminho aos poucos fui compreendendo a importância dos festivais sazonais dos pagãos: os sabás.
Na nossa metade do mundo temos sol o ano todo, calor o ano todo e, sobretudo, flores o ano todo. O milagre do renascimento não é tão evidente para nós quanto é para um europeu que passa metade do ano no frio e na escuridão a maior parte do dia.
Assim é perfeitamente compreensível a celebração do Yule no dia 21 de dezembro, quando a duração da noite atinge seu ponto máximo – solstício de inverno – por que se sabe que a partir daquele momento a luz começará, pouco a pouco, a vencer a escuridão até que dia e noite tenham a mesma duração.
Isso ocorre no equinócio de primavera – Ostara – e simboliza o momento em que as plantas, vencendo a terra gelada, começam a brotar e em que os animais, saindo de suas tocas, começam o ritual do acasalamento. Festeja-se a vida, o renascimento e a vitória da luz sobre as trevas que aos poucos vai regredindo.

O mundo continua a girar até que também a luz atinge seu ponto máximo de duração no solstício de verão em 21 de junho e celebra-se Litha  com agradecimentos pela alegria, pelo calor, pela vida, ao mesmo tempo em que se começa a preparar o espírito para acolher o aumento da escuridão já que a partir daí os dias começam a tornar-se mais curtos.
Enfim chegam o outono e seu equinócio, com dia e noite iguais e festeja-se Mabon quando são celebradas as colheitas fartas que alimentarão pessoas e animais durante os meses gelados do inverno.
Tudo isto me passou pela cabeça durante minha caminhada de 13 dias: nós, brasileiros, não damos a devida importância à chegada da primavera ou do verão porque para nós a natureza está sempre em festa. Quando comentei sobre isto com minha amiga Sue, uma inglesa que atualmente vive nos arredores de Lisboa numa quinta adorável onde cria gansos, peixes, gatos e cães, ela me chamou a atenção de que conscientemente podemos não dar importância ao paraíso em que vivemos, mas que, inconscientemente, o fazemos já que, segundo um  studo da ONU, estamos entre os povos mais felizes sobre a face da Terra.
É por isto que sempre digo: não deixo meu paraíso por nada.
E viva o sol!


ASSIS II

Quando nos abrimos para o divino, tudo que fazemos é elevar nossa vibração energética e com ela a nossa capacidade perceptiva, para que possamos enxergar o mundo da maneira que ele realmente é.
                                            (O Segredo de Shambhala – James Redfield)

Fim de caminhada é uma delícia! A gente continua a caminhar, é claro, para conhecer a cidade, comprar coisas, sair para comer, etc... Mas a mochila fica no hotel, e, sem a mochila, ficamos tão levinhos! É como se flutuássemos no ar. E Assis não é fácil! É ladeira para todo lado. Aliás a chegada foi a prova final: um kilômetro de uma subida íngreme, em uma estrada sem acostamento e estreita. Os carros iam descendo e eu subindo. Achei, como sempre, que não ia conseguir, mas fui, como sempre, até o fim. Afinal, chegar é preciso

A máquina fotográfica arruinou pouco antes de eu chegar à cidade. Não pude registrar minha chegada nem o recebimento da Assisiana. Depois de me registrar no hotel, deixei a mochila e parti em busca de um fotógrafo recomendado pelo senhor que me deu a Assisiana. Quando disse o problema ele me olhou com cara feia e disse que ali não se consertavam máquinas. Dei meu sorriso mais cativante e expliquei que só queria a opinião de um expert para saber se era o caso de jogá-la fora. Aí o italiano (lindo) se derreteu todo e me deu uma belíssima paquerada. Disse que eu tinha lindos olhos azuis, deu um jeito de saber se eu era casada e se estava viajando sozinha. Como a máquina estava realmente quebrada tive que comprar outra. Ele me explicou direitinho como usá-la, sempre bem de pertinho e no final beijou-me a mão. Gente! Com essas pernas e esses olhos azuis não tem pra ninguém!!!
Encontrei no hotel uma peregrina da Bosnia, que também está caminhando sozinha. Ontem, enganada pelas placas que mostravam Assis apenas a 4 Km de Valfabrica, resolveu esticar mais um pouquinho e chegar até aqui. Só se deu conta do erro quando já não dava mais para voltar, Caminhou 13 horas e chegou em Assis um bagaço. Mas, corajosa, vai continuar até Roma. 
Amanhã pretendo ir a Perúgia e depois de amanhã volto a Milão. Quando a recepcionista soube que eu queria ir a Perúgia propôs que eu fosse andando. “São só 25 Km”, ela disse. Tá louca! Eu vou é de trem!!!


Assis - 31 de maio - 13º dia




Quando eu era menino, falava como um
Menino, sentia como um menino.
Quando cheguei a ser homem,
Desisti das coisas próprias de menino.
Porque agora vemos como em espelho,
Obscuramente, e então veremos face a face;
Agora conheço em parte, e então
Conhecerei como sou conhecido.
Agora, pois, permanecem a Fé,
A Esperança, e o Amor.
Estes três.
Porém o maior deles é o Amor.
  (Carta de S. Paulo aos Coríntios)


Finalmente cheguei! Saí às 5:45, passei numa confeitaria para tomar o café e comecei a caminhar às 6:10. O caminho foi absolutamente tranqüilo, com seus sobe e desces habituais. Cheguei aqui às 10:30 mas estava sem sinal de internet. Ontem à noite rolou o maior “barraco” no albergue. Um senhor italiano, aquele que esteve no albergue de Cittá di Castelo comigo, chegou e foi logo exigindo quarto
com banheiro privativo, roupa de cama e banho ,e televisão. Depois reclamou do preço – 20 euros – que na opinião dele era um roubo porque afinal ele era peregrino e não estava ali para fazer turismo.

Na hora do jantar quando soube que o primeiro prato seria pasta all’arrabiata, reclamou porque havia comido aquilo no almoço e não queria comer de novo. A hospitaleira propôs que ele comesse apenas a carne e a batata, caso em que ele seria servido de mais batata e ele reclamou que menu com apenas um prato, nem valia a pena,; ela propôs de preparar uma sopa e ele reclamou que ficaria muito tarde e decidiu que jantaria em outro lugar. A estas alturas já estava aos berros, chamando a hospitaleira de mal educada. E eu ali quietinha tentando comer tranqüila. Foi a maior baixaria! Eu fico pensando para que uma pessoa assim sai de casa para fazer peregrinação!

Estou no Hotel San Giacomo que fica logo na entrada da cidade e é uma gracinha.  Meu quarto fica numa área especial que dá para um terraço florido com varal para secar roupa, mesas e cadeiras. A recepcionista disse que os estrangeiros preferem estes quartos por que podem ficar ao sol enquanto tomam alguma coisa e batem papo.
O quarto é ótimo! As toalhas são de linho e tem telefone.


Por Que Caminhar?

... en el sentido más profun­do, el cuerpo es el lugar más íntimo. Tu cuerpo es tu casa de arcilla; es la única patria que posees en este universo. En tu cuerpo y a través de él, tu alma se vuelve visible y real para ti. Tu cuerpo es la casa de tu alma en la Tierra. (Anan Cara – El libro de la Sabiduria Celta – John O’Donohue)




Algumas pessoas (mas não a maioria) sabem que me identifico muito com São Francisco de Assis; identifico-me com ele no amor aos animais, na busca pela verdade, no respeito pelo próximo. Mas não me identifico com ele, de maneira alguma, na maneira de tratar o corpo que segundo ele era fraco e fonte de tentações, e devia, por isto mesmo, ser mortificado e castigado tanto quanto fosse possível. Aliás, esta é uma idéia recorrente na igreja católica, a de que o flagelo do corpo é um passaporte certo para o reino dos céus.
Muitos de vocês devem se perguntar o motivo de enfrentar dias e dias de caminhada sob sol forte durante longos trechos que maltratam tanto meus músculos. E certamente gostariam de saber o que quero conseguir com tanto sacrifício. A resposta é: não é sacrifício algum! Não faço por sacrifício, nem para alcançar graças dos céus. Faço por puro prazer! Com o mesmo prazer com que resolvo um exercício difícil de matemática ou com que mergulho fundo num exercício de meditação. Quero ter a certeza de que estou usando bem todas as três dimensões que me foram dadas ao nascer. Meu corpo é forte e usá-lo até o seu limite é também uma maneira de respeitá-lo. Dia virá em que ele não será mais tão forte e por respeito eu o deixarei descansar.
Além disso, não há nada que pague todas as maravilhas que vi, ouvi e senti nestes dias de caminhada, aqui e em Santiago. Todas as flores, todas as cores, todos os tons de verde, o som dos riachos, o cantar dos pássaros, o cheiro da resina das árvores, da terra molhada...; as pessoas que encontrei e que muitas vezes deixaram seus afazeres de lado para ensinar-me aonde eu deveria ir; aquela senhora de 86 anos, cabelos branquinhos que me convidou a sentar ao seu lado e depois me perguntou, muito inocentemente, se eu era macho ou fêmea; as meninas que deixaram seu jogo de bola para vir entregar uma pedra pintada por elas a uma peregrina que nunca tinham visto antes e que nunca mais veriam depois.
 Quando eu iria ter todas estas coisas concentradas em tão poucos dias se ficasse sentada em casa vendo as horas passarem como uma respeitável senhora de 57 anos?  A resposta é: a gente só encontra se for buscar. Se ficarmos parados a vida passa e nem sequer ficamos sabendo.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

A Busca da Felicidade

“Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo...” (Fernando Pessoa)

Quando minha filha terminou o 1º grau era a única menina de uma turma de 13 alunos. Não sei se por ser a mãe da única menina, eu fui convidada para madrinha da turma. No meu discurso para meninos com idade entre 14 e 16 anos, mal saídos da infância e no início de uma época de grandes decisões, eu falei sobre a busca da felicidade. Disse a eles que todos nós vimos a este mundo para sermos felizes. A vida é uma grande corrida de obstáculos e no final o prêmio é a felicidade. Se você desistir ou fizer trapaça pode até ganhar um prêmio de consolação, mas não fica com o prêmio principal.
Disse a eles também que na busca pela felicidade três coisas são muito importantes:
1º À medida que se vai avançando na corrida e vencendo um a um os obstáculos, já se começa a ter a sensação de felicidade. Esta sensação não tem nada a ver com o carro do ano, ter casa na praia ou viajar para a Europa todo ano. É uma sensação interior, da alma. Então, que quando eles se tornassem um grande economista, ou o diretor de uma grande empresa ou então sócio de um escriório de advocacia, que ficassem sempre atentos à própria alma. Se sentissem que ela não estava feliz, que parassem tudo e voltassem à estaca zero. Não há problema em se recomeçar quando o prêmio é a felicidade!
2º - A felicidade é sempre mais completa quando todos à nossa volta também estão felizes; então, quando começassem a sentir a sensação de felicidade que já começassem a espalhá-la à sua volta, que ao final tudo estaria multiplicado por mil..
e 3º - Que na busca pela felicidade só não valia derrubar o outro para chegar na frente ou pisar no colega para chegar mais alto. Que assim o prêmio não era entregue. E que se fosse ficaria pela metade pois como disse há alguns dias somos todos um e o que se faz a um se faz a todo o universo.
Não sei o que foi feito daqueles meninos. Não sei se eles levaram meus conselhos a sério e estão buscando a felicidade. A menina da turma está indo muito bem, aprendendo a viver em harmonia consigo mesma e tentando se conhecer, o que,, aos 26 anos já é um bom começo. 

Valfabrica - 12º dia - 30 de maio

A magia é a arte de mudar a consciência à vontade. (Dion Fortun)

Ontem afinal fui convidada para a festa de 1ª comunhão que o pároco havia celebrado. Comi muita bruschetta con formàggio, muita pasta e bebi muito vinho. Don Marco ficou todo o tempo ao meu lado para que eu não me sentisse deslocada. Às 9:30 cumprimentei o comungante e seus pais e fui me deitar por que a etapa de hoje seria longuíssima. Acordei hoe bem cedo e quando saí ainda não eram 6 horas.

Ontem fiquei sabendo que nunca mais tornarei a ver a minha estrela. Mas ela continuará ainda a iluminar muitos outros céus, outros tantos caminhos e a guiar muitos outros peregrinos. Dizer adeus é sempre muito difícil, mas infelizmente também é quase sempre inevitável.  Queria agradecer à minha estrela por ter, durante tanto tempo, iluminado meu caminho e encantado a minha vida. Espero que nossos próximos caminhos separados sejam tão belos e ricos em aprendizagens quanto foi nosso caminho juntos.
E agora uma ótima notícia: depois de 37 dias (26 em Santiago e 11 aqui) me acostumei a dormir no saco!  Ou seja estou conformada com a vida de salsicha.

                                           Gubbio visto de longe
A caminhada foi extenuante com subidas e descidas (como sempre). Desta vez minha água quase acabou e eu tratei de economizar. Fiquei com sede e fome pois se comesse ia sentir mais sede. Minha salvação foi um cemitério com uma fonte de água potável. Matei tanto a fome quanto a sede e continuei. Mas a cidade nunca que chegava e o sol estava de rachar ( a cada dia que passa vai ficando mais quente.). Aí faltando 1 km para chegar fiz "batota": Passou um rapaz numa BMW vermelha e perguntou-me se eu não queria água fresca, e disse-me para passar na casa dele à beira do caminho. Eu até que não ia, mas quando estava passando ele e o pai dele me chamaram. Eu fui, enchi a garrafa, conversei um pouquinho e o rapaz me perguntou se eu queria que ele me levasse até o refúgio. Não resisti!!! Carona e ainda por cima numa BMW!!! Assim cheguei mais descansada e mais rápido. A Kris, minha filha, fica preocupada com estas caronas, mas eu atravessei várias montanhas isoladas, encontrei caçadores, lenhadores e guardas florestais e nada me aconteceu, não vai ser agora que algo vai me acontecer.Tentei tirar uma foto minha, mas hoje a pedra não cooperou e a foto não prestou!
Aos poucos começo a ver outros peregrinos. Aqui no refúgio está o senhor que encontrei em Città di Castello. E acabei de ver um casal austríaco que também estava em Pietralunga. Chegaram mortos, às 4 da tarde, praticamente se arrastando.
Já tomei  banho, lavei a roupa, tomei o meu vinho e um "panini" e estou descansando ( e escrevendo). Amanhã coloco mais fotos. Hoje está demorando demais para fazer o download.

domingo, 29 de maio de 2011

Gubbio - 11º dia - 29 de maio

Ninguém é suficientemente perfeito, que não possa aprender com o outro e, ninguém é totalmente destituído de valores que não possa ensinar algo ao seu irmão. (São Francisco de Assis)

Saí de Pietralunga hoje às 6:12 e fazia um pouco de frio. As pernas doendo e sem tomar café. Tudo fechado. Prefiro sair mais cedo para caminhar o maior tempo possível com o sol ainda baixo. Quando ele esquenta éum Deus nos acuda de tanto calor.

As pernas doeram ainda muito à noite e esta manhã tomei mais um comprimido de relaxante muscular. Decidi fazer um desvio, este intencional, que economizou-me uma hora e vários km. Eu conheço meu corpo: exijo muito dele porque sei que ele aguenta, mas também tenho muito respeito por ele e sei quando parar. Fiz o caminho tranquilamente, devagar e cheguei às 12:00 no centro da cidade.
                                                     Portão Romano

A Caminho de Gubbio
Estou hospedada no Oratório Paroquial Madonna del Prato. O pároco Don Marco estava numa missa solene (1ª comunhão) e só atendeu o telefone hora e meia depois. Enquanto esperava comprei uma cerveja, sentei numa das mesas do pátio da paróquia e almocei. Don Marco é bem jovem, talvez uns 28 a 30 anos, mas super simpático e o refúgio é bastante bom. A ducha parece que fica em outro prédio e como a família do comungante está preparando a festa aqui no pátio Don Marco ofereceu-me seu próprio banheiro para que eu não ficasse constrangida. Além disso convidou-me para a festa de hoje à noite.
                                                    TeatroRomano
Hoje é domingo, as ruas estão cheias e o comércio quase todo fechado. Tive dificuldades em comprar o lanche de amanhã e só consegui carboidratos. Mas tudo bem! À noite encho-me de proteínas.

O Medo que Paralisa

Cada um de nós é, em realidade, uma idéia ilimitada de liberdade. (Fernão Capelo Gaivota – Richard Bach)
Possivelmente a maior lição da vida a ser aprendida é a liberdade: liberdade em relação às circunstancias, ao ambiente, a outras personalidades e para muitos de nós, em relação a nós mesmos... – ( Edward Bach - Terapia Floral)


O episódio sobre o hospitaleiro que preferiu desligar seu celular ao constatar que não teria condições de cumprir o que prometera me inspirou esta reflexão: o medo que paralisa.
Obviamente ele ficou com medo da minha reação quando tivesse que me dizer que não haveria água quente naquela noite. E o que eu poderia fazer? Talvez gritar ou reclamar (esta não sou eu, mas ele não poderia saber), mas tudo não passaria disto. Teria sido muito mais honesto e correto devolver-me os 10 euros que paguei e encaminhar-me para o hotel. Ao invés de fazê-lo preferiu passar por desonesto por puro medo da reação de uma desconhecida.
Muitas pessoas agem assim: por medo de um julgamento ou de uma condenação se escondem e fingem que nada aconteceu. Desligam celulares, não retornam mensagens, não respondem e-mails, mudam até de caminho para evitar a pessoa com quem acham que agiram mal. E não são só estes os caminhos de fuga que uma pessoa toma para se esconder até de seus próprios sentimentos. Lembro de uma moça de uns 16 anos que veio ao meu consultório, muito deprimida por ter terminado com o namorado a quem amava muito. Sem entender perguntei-lhe por que havia terminado com ele se ainda havia amor. Ela me disse que tinha muito medo de perdê-lo e por isso tinha preferido se afastar dele. Agora vejam até onde pode chegar o efeito paralisante do medo:  ela havia aberto mão,voluntariamente, de (talvez) mais alguns meses de felicidade junto ao amado de tanto medo de perdê-lo.
A frase que escolhi para a reflexão de hoje fala exatamente disto: somos todos nós uma ideia ilimitada de liberdade. Não podemos nos cercear,  prender-nos, a nós mesmos, dentro das quatro paredes do medo tentando evitar a verdade, a opinião de outras pessoas, o constrangimento de se admitir errado, tentando enfim evitar o sofrimento, porque, nesta prisão, acabamos também por evitar, sem querer, o amor, a felicidade, o crescimento interior.
O medo paralisa! Com medo não se vai a lugar algum. Fica-se trancado em casa (dentro de si mesmo), lamentando a vida infeliz e desinteressante que se leva. Cada demônio interior é portador de uma preciosa benção que curará e libertará. Para receber esse dom, devemos deixar de lado nosso medo e enfrentar o risco de perdas e mudanças que cada encontro interior traz consigo. Só adquirimos consciência do eterno em nós quando confrontamos nossos medos e os obrigamos a retroceder.

sábado, 28 de maio de 2011

Pietralunga - 11º dia - 28 de maio


Quase todos nós percorremos um longo caminho. Fomos de um mundo para outro, que era praticamente igual ao primeiro, esquecendo logo de onde viéramos, não nos preocupando para onde íamos, vivendo o momento presente. (Fern~~ao Capelo Gaivota - Richard Bach)



Minhas pernas chegaram ao seu limite. Estão doendo demais! Já tomei 2 comprimidos de um relaxante muscular e elas continuam doendo. Espero conseguir dormir.


A novela da água quente de ontem terminou comigo pegando todas as minhas coisas às 8:30 da noite e me mudando para um hotel. O hotel estava lotado e acabei pegando o quarto que ninguém quis: bem defronte a um bar que ficou aberto té as 3 hs da manhã. Conclusão: dormi apenas 2 horas na noite passada. Nem posso me queixar pois não tinha feito reserva.
Com a história de ficar esperando a água quente, não lavei minha roupa, não comprei provisões para hoje e nem tive tempo para lavar o cabelo já que não ia secar.
E o hospitaleiro ainda sumiu porque sabia que não ia haver conserto ontem. Desligou o celular e nem quis saber.

                                                         Città di Castelo
Hoje estou estourada depois de apenas 2 horas de sono e de caminhar 31 km. Mas cheguei, lavei minha roupa toda, comprei comida para amanhã e já jantei. Agora espero capotar e só acordar amanhã.
Quando ia chegando na cidade, cansada e precisando de carinho e de colo, uma senhora de 86 anos sentada num banco me chamou para sentar-me com ela. Depois a filha me trouxe uma laranja que devorei, já que quase não comi nada o dia inteiro.
Depois umas meninas vieram e trouxeram uma pedra pintada em verde com o Tao e me deram de presente. Foi o melhor fim de etapa que já tive.